domingo, 5 de junho de 2011

Não protege os teus filhos/protege todos os filhos*


Uma amiga muito querida, que foi a primeira grande amiga a ter filhos, me dizia que depois que o menino dela nasceu ela passou a se sentir mãe do mundo. E via as crianças abandonadas nas ruas do Recife e seu coração dava uma fisgada, porque ela se sentia responsável. Na época, há mais de 10 anos, eu entendia o que ela, Siane, me dizia, mas confesso que ao mesmo tempo não sabia o que seria esse sentimento de ser "mãe do mundo".

Só vim a entender depois que minha primeira filha nasceu.

E me dá um nó na garganta, uma fisgada no coração, um choro abafado dentro da alma, ver crianças desamparadas, maltratadas, exploradas, assassinadas. É como se fosse um pedaço dos meus filhos que é violentado. Um pedaço da criança que fui e que, por vezes, ainda sou.

Quando a tragédia de Realengo aconteceu, eu não consegui escrever nada sobre o caso. E me senti impotente, paralisada. Como me sinto todos os dias quando vejo o noticiário e saltam aos olhos os inúmeros caso de violência contra a criança, aqui e no mundo.

E me pergunto, que mundo é esse, sem a ingenuidade de achar que esse é um mal da contemporaneidade, afinal a matança dos inocentes com certeza vem de antes de Herodes. E me pergunto o que podemos fazer para proteger todos os filhos.

Buscar políticas mais justas? Discutir sobre esse estado de coisas? Criar boas pessoas acreditando que o futuro pode ser melhor e, talvez jogar para a póxima geração uma responsabilidade que vem sendo passada de geração a geração como naquela brincadeira da batata quente? 

Como proteger não apenas os meus filhos, mas todos os filhos?

Não sei. E me dói não saber. Mas sei que não quero que meus sentidos se entorpeçam e eu passe, como muitos, a achar que isso é banal.




* O título desse post foi retirado de um verso do poema Tu Messias Mais, do poeta português João Negreiros. Para ler o poema ou assisti-lo na interpretação do próprio poeta, clique aqui.

2 comentários:

Luciana Onofre disse...

Acho querida amiga, que há valentes e valentes...
Valentes como nós que decidiram trazer mais pessoas ao mundo, apesar de tudo...
E valentes que decidem não ter filhos apesar de tudo..
E o mundo que a todos nós acolhe espera muito mais de todos os valentes que aqui habitamos...

Dáfni disse...

Puxa, Mimi, difícil, né? Eu também me sinto assim, mas mais por animais, que eu sei que também não tem noção do mundo e de como se proteger, como as crianças. Me sinto impotente também, mas ao mesmo tempo tento fazer a minha parte. Porque todos somos impotentes para resolver o problema como todo, mas não para fazer coisas localmente...

Grande beijo!

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