Essa semana o tema da erotização infantil voltou à tona com intensidade devido a dois ensaios fotográficos franceses. Não, não é no Brasil e eu que há dois posts atrás reclamava da legislação brasileira no que diz respeito à publicidade, reconheço que o buraco é bem mais embaixo.
Um dos ensaios, da Vogue francesa, traz a mini top-model (!) Thylane Blondeau em poses assumidamente eróticas, com roupas não condizentes com a sua idade e com maquiagem pesada. Não se trata de uma brincadeira inocente e nem uma reprodução daquilo que as meninas tanto fazem, de se maquiar, colocar o salto e a roupa da mãe e brincarem de gente grande. Pelo contrário. O olhar da câmera é sedutor e pede à pequena modelo que seduza também. Nenhuma menina de 10 anos, ou de mais de 10 anos, tem maturidade para aguentar as consequências do estímulo sexual precoce, isso é fato.
No outro ensaio, da Jours après Lunes, uma marca de lingerie infantil(!), embora a maquiagem seja mais suave, as imagens das meninas remetem às prostistutas do século XIX e às pin-ups. De novo, nada de inocente, o que me faz perguntar mais uma vez: não há limites para a publicidade? Não há limites para esse Minoutauro engolidor de vidas inocentes?
Não perguntarei pela responsabilidade desses pais, visto que se a tivessem não permitiriam suas crianças expostas dessa maneira. Pergunto é pela responsabilidade do Estado na proteção das crianças e na mobilização da sociedade civil no repúdio a atitudes como essas.
Historicamente a infância é uma criação muito recente. Até o século XVII crianças eram vistas como reproduções dos adultos. Assim crianças eram vestidas como mini-adultos, assumiam suas responsabilidades e não encontravam na família o lugar da afeição que as sociedade industriais começaram a lhes reservar. Não era raro, já no século XX, que crianças casassem e até parissem outras crianças (como ainda hoje infelizmente ainda não é raro).
A criança, ou a infância, como a conhecemos hoje é um produto da ascensão da burguesia e dos estudos psicológicos que se inauguraram a partir dos estudos de Freud. Graças a esses fatores deu-se à criança o seu devido lugar na sociedade, estudou-se seus processos de desenvolvimento, seus limites e potencialidades. Logicamente isso parte de um modelo ideal pois nem todas as crianças têm seus lugares garantidos, seus direitos respeitados. Quando campanhas como essas expõem uma criança, estão expondo a todas. Quando erotizam uma menina ou menino, estão erotizando a todos os meninos e meninas. Campanhas como essas representam não apenas um retrocesso, mas sobretudo um risco a todas as crianças.
Nisso, que papel nos cabe como pais, mães, cidadãos? Denunciar, boicotar, escrever nossos textos de repúdio, fortalecer nossas redes e nos fortalecer em nossos princípios. Parece pouco, mas não é. Acredito muito no poder que temos ao nos unirmos em torno de uma ideia.




2 comentários:
oi
prazer,sou nova por aqui!
mto bom seu texto,mto legal seu blog!
um beijo
angi
Sempre fico deprê quando vejo coisas deste tipo. Um dia desses eu vi o vídeo de uma menina imitando claramente as youtubers, fazendo um tutorial de maquiagem e usando a mesma linguagem que elas. Não era natural e, na minha opinião, estimula a criança a achar que só será feliz se tiver seguidores, se fizer vídeos, se for formatada. Horrível, né?
Excelente texto Mimi!
Beijos
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